segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Day 1

I.,

Você fez o que nem meus pais fizeram nesse último fim de semana: me apoiou e reconheceu a gravidade da questão que me deixou imensamente depressiva. Me ofereceu colo, passeio, ouvidos e marijuana para que eu pudesse relaxar um pouco e esquecer a tensão que me dominava. E ainda há mais coisas: as anfetaminas, a companhia nos delírios e sonhos de magreza, a compreensão do mal que carrego comigo. Eu jamais imaginaria que uma simples amizade de internet renderia uma união extremamente sólida, na qual não há nada que se ambicione através dela. Posso dizer que a nossa amizade é uma das mais desinteressadas que tive em toda a minha vida (e, veja bem, meu histórico de convívio social é permeado majoritariamente por amizades que visavam se aproveitar de qualquer coisa - qualquer coisa mesmo - minha). Talvez isso seja dessa forma por você não ter necessidade de sentir inveja de mim (aliás, ninguém deveria - sempre acho que ter inveja de mim constitui um dos maiores disparates que eu já vi). Enfim, uma coisa e outra são totalmente estranhas e incompreensíveis para mim.

Do nosso tempo de convívio, talvez haja apenas um mal que você provocou em mim, mesmo que sem perceber (e o mais nefasto disso tudo é que esse mal ainda me consome até hoje e vai continuar me consumindo por toda a minha vida): apresentar aquele que viria a ser o que mais me traria alegria e desespero para os meus dias, o único homem pelo qual eu posso dizer que me apaixonei de verdade até agora - não que eu creia que isso vai mudar de perspectiva, mas enfim... Você tem noção do que fez com um simples pensamento? Talvez não tenha. É bem provável que tenha passado pela sua cabeça uma intenção exatamente oposta: a de trazer felicidade, amor e colorido para as minhas horas extremamente doentias. Mas repito: você sabe o que você fez ao pensar e dizer para mim "Isa, conheço alguém que é a sua cara, acho que vocês vão se dar superbem!"? Bom, é realmente certo que não saiba. Na verdade, se pensarmos bem, foi um mal que me alimenta, que me dá coragem, que me legitima, que me faz resistir na boca um gosto de sol, assim como o transtorno que carrego junto a cada momento. Devo então te agradecer? Se eu prosseguir no meu delírio, e bem provável que eu te abrace efusivamente, com lágrimas nos olhos, feliz por ter a única lembrança que me alimenta e que, junto com a minha obsessão com o controle do meu corpo, me faz prosseguir.

I., acho que devo muito mais do que posso pagar. E penso se é possível saldar essa dívida. Talvez essa seja mais uma das coisas inatingíveis que constituí como metas para mim mesma. God knows.

Um comentário:

  1. Aposto que uma amizade sincera e incondicional assim deve fazer toda A diferença.

    A propósito, comecei essa "brincadeira" das cartas também. Espero que não se incomode, pois copiei de vc.rs

    bjo

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